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domingo, 13 de novembro de 2016

(Série) Cardeal Malungo


Cardeal Malungo I


O Templo do Dragão 

Um anseio pergunta-me "Quando?"
À pertinaz monotonia ensurdece
Tremores ínfimos, e incessantes queixumes 
Reles obscura a segregada mácula   
E nas horas mais tensas, escurece...

Recolhem-se então, as cores alvas
Nas ruas, soberbas a lâmpada q'brilha
    Entreolhares nas janelas

"Que luz é aquela?"

"Na profusão impávida quem mora?"
Porque quando a lua atrai a terra
O mar se lança sobre os rochedos
A ignomínia  que sonda o coração
É, a ascensão do medo

...Na escuridão das campinas
Malungo (irmão meu)
 Se entregou ao exílio da fé!"

E lendas nos assolavam
Neste labirinto cativo indagos; "sem valor
é bradar-se livre."
 Liberdade é seta apontada para o alto

Pássaro verde, zircão escurecido
Não tem mãos para levar a tramela
À-poteose das maiores chamas
Tão azuis quanto o sorriso do céu
Estão nos fugitivos das gaiolas 

Ouvi tua voz pousando,
Em timbres sísmicos e revoltos
Quem não quisera ouvi-lo
Cardeal incandescente
Quais borrões to nomearei?

"Malungo irmão meu" 

Límpidas correm as brisas
 Velozes zenetas em seus corcel
Ditos teus pergaminham
Como as rochas q'se lançam das altas montanhas
Rugem os trovões alaridos 
O menor dos homens conhece o céu
E sobre as nuvens caminha...

Cardeal Malungo insigne;
-Qual o alcançar de um homem?
Que estanda no olhar o brasão,  amor!
E ensina-me a ser livre?

"O extenso alcance de um horizonte
Pouco antes do sol se pôr."
 E a noite será apenas ao langor
Quando a luz faltar aos montes

A centelha da alma nunca fosca
Benévola a rigidez de uma convicção
Prove-se então ao que sai pela boca
 Neste templo soberano mora um dragão

L.L.S
Cardeal Malungo
II 

(A busca pela inspiração) 

Trilha nas pedras mais duras
A dor cruel severa o caminho
O ávido ousa embebecido 
Anseios nunca sejam-te tortura
a Sórdida cuja solidão, acalenta o sozinho
O Lúcido sábio, é o louco desconhecido 

Mamanbaga precede sozinha
Prostíbulos desabitados 
O feitor desconsolado caminha
Na lápide d'teu rosto escondes
O passado que ela não tinha 

O graal amortecido levanta
Malungo irmão meu!!!
Cujo olhar sedento à luz branca
E pede a Deus; 

Da massa volumosa viçosos "frutos!"
Corpos mortos suscitos 
e Senderos que brilham.
A fineza sensível q'provoca a alma.
Evoca a estigma do ser
irreversível! 

Eu tenho olhos meu Senhor!!
Mas pouco consigo ver!   
E a estátua gravada na corte brada
"Infame perdulário pingente
Navega na proa!" -O desprezo d'tua barca! 

Malungo eleito Cardeal reminiscente
Fere o sino à sinagoga calada.
Aonde soterraram dez'crentes
Inspira-te na fé e descubra-te dos nadas 

Não se descobre no corpo a bela mulher
O Homem do futuro aprenderá a ser Poeta!
Transcrevendo a gênese perpetuada
Como a incrédula mão que força a pena. 

Escreves então em ti o que vier
À simplórias noivas em luxuosas festas
À mais belas ainda na beira dessa estrada
Se há ambição carnal; -Em tua inspiração,
Ela será de todas a mais pequena! 

Um dia vi um homem abarrotar literaturas 
E pelos seus livros fora levado.
Mais adiante vi outro que nada tinha
Mas se recusava ficar calado
Todo os livros que ele tinha
Em seu coração estavam guardados. 

Na senda do ego há um manancial
Nele existe um s'pelho'd'agua
A fonte irmão meu, nunca foi tua
Pobre, cego e nu,  parte o mortal
E logo desaparece como a fumaça
Se o manancial deixas livre a correr
Alcançastes, e in'spirada tu'alma flutua.

L.L.S


Cardeal Malungo
III

O Bondoso, Gigante de Pedra.

Multidões de veias dividem a rocha
Matéria densa, q'comprime às frestas
  Turbilhão -luzes areadas batem à porta!
Sólida cede, e resoluta incontáveis fendas
Benévolas de bons grados fogem às pressas 

Mamulengos encenam, "à Justiça Cega"
Corpulenta força a eles se curvava
Tudo ao teu povo entrega, Realengo.
Sem domínio teu reino é alheio, ao nada.

Muralhas fortes, protegem a cidade vazia
Na porta do templo ouvi-te Malungo
"Consortes o fio da navalha arde, como a poesia!"
Absolves à estes outros? "Ó consigo injusto!"

O gigante de pedra morava no mais alto
de todos os montes, alcançados.
Todos os viam, mas não sabiam-te incauto
Que o fogo e o horizonte morrem calados...

Ele ama, e por tal ardor também morre
"Sabes filho" que todo aquele q'se levanta
Contra si mesmo, arma letal inspira e forja
O brilho que escapa pra fora deve-te alva púrpura, 
O celibato na masmorra que a todos encanta
Deve saber que falta a ele mesmo dessa loucura.

Cardeal Malungo IV 

Cardeal Malungo
IV
Um Monge que não sabia orar.

Nos relevos incógnitos
Cobria a relva verde
Um templo cosmológico
Sem telhado ou paredes

Sabedorias segredadas
Contidas
Triunfos da alva
Trevas regurgitas

Um filho,
de auroras orvalhadas
Pelo voto do silêncio
― Quem és? .
...Se enaltece e de si mesmo esquece!

...Por uma aranha tecendo redes
Morte anódina d'um mosquito
Há qualquer dor abstrata ele calcanha

Sem preces conhecidas, chora
Indagas ao vazio e aflito se esconde
Reza tão perdido como o que sonha
― Pôr quem é que tanto implora?
Cético ao alheio, o estranho monge. 

― Imaculado serve-te o corpo?
Livre da libido
pela santa estigma imposta
Este espécime híbrido 
E órfão indulgente (um filho)
Recusando a razão de todas às lógicas... 

De vida cega,
vive tal qual à um morto!
Monsieur Cardeal Malungo
Abomina as trevas
que aprisionam o corpo!

Ermida em silenciosa capela
Deserta fenda da abstenção
Já de partida Malungo escuta;
― Espera!

A voz do Monge
(pela primeira vez foi ouvida)
― Oração?!? "Explica-o Malungo;
Não é o que ensinam,
Mas é aquilo que a própria alma busca...


L.L.S
(Lourisvaldo Lopes da Silva)
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